AS FÉRIAS: ENTRE MEMÓRIAS E REALIDADES

JO JONES77

 

Após um merecido período de férias, o nosso Ponney regressa repleto de novidades. Mais descansado ou não, isso logo se revelará. As férias, por vezes, têm a função de organizar as ideias e pôr em ordem a casa, permitindo realizar tarefas que, no decorrer do ano, foram relegadas ao esquecimento pela falta de tempo.

Eu, por meu lado, dediquei uns dias a fazer o que realmente aprecio: caminhar, ler, namorar, escrever e, principalmente, reservar tempo para mim. Não sou dado a saudosismos, mas há algo de especial em revisitar doces memórias. Durante a minha infância e adolescência, os meus pais esforçavam-se para me levar à praia, seguindo o conselho do meu médico devido a problemas com os ouvidos e garganta. A minha mãe preparava o farnel logo de manhã cedo, e lá seguíamos, com destino à praia da Tocha ou Mira cheia de cestos, toalhas e o rádio transístor para se poder ouvir os relatos de futebol.

Saíamos cedo de casa, numa época em que os automóveis eram escassos e as estradas estavam num estado deplorável. O mar, por sua vez, apresentava-se revolto, gelado. No mês de Agosto por vezes havia tanto nevoeiro que julgava que a qualquer momento podia aparecer o D. Sebastião.

O vento, em algumas ocasiões, trazia consigo pequenas tempestades de areia, que nos davam pequenas "tareias" e nos deixavam em semi cegueira.

Com o decorrer do tempo, o Algarve começou a ser a moda entre os “veranistas”. As águas quentes e o sol trouxeram algum turismo, com a presença de alguns ingleses, alemães e holandeses. Os portugueses do norte não frequentavam muito as praias do sul. Era muito longe!

Contudo, os tempos mudaram, assim como as mentalidades. Hoje, todos anseiam pelas águas e pelo sol do Algarve, e eu naturalmente não sou exceção.
A minha visita, porém, não se deve apenas a essa procura. O meu companheiro, natural do sul, também gosta de revisitar memórias e amigos de infância que permaneceram por aquelas paragens.

Optámos por um local tranquilo, longe da confusão das multidões. Assistimos ao nascer da lua cheia de Agosto, sob um céu repleto de estrelas, onde a Via Láctea ainda é visível, protegida da poluição luminosa. Com uma viola clássica e mãos que conhecem as melodias de cor, deixei que a linda voz da minha mãe e os “desafinos” da minha acompanhassem as notas. Apenas por isso, as férias já teriam valido a pena: um tempo de felicidade.

Entretanto, este tempo de repouso também trazem consigo uma face menos aprazível. Ir à praia transformou-se num desafio diário. Os acessos são, muitas vezes, horríveis. O estacionamento é quase uma miragem, e as praias, abarrotadas de gente, tornam-se um verdadeiro caos.
Os espaços disponíveis são limitados, e o restante é dominado por concessionárias que exigem pagamento. Na verdade, tudo parece estar sujeito a taxas. Nas vilas, os preços dos estacionamentos são elevados, mesmo até às 22 horas. Sair para um passeio nas noites quentes, na tentativa de escapar do calor, tornou-se quase impossível com as multidões na rua e a falta de acessos.

Os mergulhos, que na minha adolescência eram revigorantes mesmo em águas geladas, este ano no Algarve revelaram-se inviáveis. O mar parecia uma sopa quente, repleta de algas verdes e pegajosas, evocando a imagem do filme do predador Alien e da baba viscosa que deitava. As areias, por sua vez, apresentavam-se de um tom verde e exalavam um odor nauseabundo.

A questão ambiental também se fez sentir. O lixo deixado nas areias e a falta de cuidado com a limpeza eram visíveis, criando um cenário que feria a beleza natural do lugar. O barulho das multidões e a falta de respeito pelo espaço alheio tornaram a experiência menos aprazível, transformando o que deveria ser um momento de relaxamento numa verdadeira prova de paciência.

Algumas praias foram interditas a banhos devido à presença de bactérias nocivas à saúde pública. Ao sair da praia, desejei ardentemente encontrar um duche ou um lava-pés, como aqueles que temos nas praias do norte. Um simples lava-pés que, ao que parece, se tornou uma raridade. Compreendo agora as razões por detrás da contaminação das águas. Nem, casas de banho existem à entrada das praias. Ou à saída. Depende da perspectiva.

Quanto aos restaurantes, a lotação era constante, sempre com filas à porta. A recordação do farnel da minha mãe nunca me pareceu tão apetecível. Decidi que seria mais prudente preparar as refeições em casa. Porém, as compras transformaram-se num verdadeiro pesadelo. Filas intermináveis para obter meros itens, como frangos assados, salsichas, saladas e pão. O sol escaldante e os preços exorbitantes tornavam a experiência ainda mais exasperante. Estranhamente, os emigrantes eram escassos. Ouvia se pouco falar francês ou inglês nas ruas e estabelecimentos. Já os espanhóis que vivem ali ao lado de Vila Real de Santo António continuam a visitar-nos e apreciam a nossa gastronomia. Talvez o Algarve se tenha tornado demasiado caro para os nossos emigrantes. Por outro lado, o número de portugueses residentes, aumentou consideravelmente mesmo com o preço elevado dos arrendamentos das casas de férias no Algarve.

Ainda assim, as férias não foram em vão. Fiz novos amigos, partilhei sorrisos e explorei um pouco mais de Portugal e Espanha. Algumas aventuras, como um sentido proibido que decidi violar sem querer, ficarão apenas entre mim e as memórias. Ao regressar a casa e à escrita, recordo como senti tanto a falta dos lava-pés da praia da Tocha. Já da barrinha de Mira nem tanto, até porque foi num desses verões inesquecíveis que apanhei por lá uma boa “camadinha” de piolhos.
A lamentar mais uma vez os inúmeros incêndios que deflagraram e consumiram florestas, casas, animais e ceifaram vidas.

Agradeço mais uma vez aos nossos bombeiros a coragem e a perseverança de nunca nos abandonarem e aos que perderam os seus entes queridos, as minhas sinceras condolências.
As férias seriam bem mais agradáveis se não fossem estes acontecimentos a mancharem o nosso coração de tristeza.

M. Jones