A NOITE DA REVELAÇÃO

Este é o meu último artigo antes de ir a banhos e decidi que seria o momento ideal para quebrar a rotina das nossas páginas. Pela primeira vez neste espaço, vou abordar um tema que foge aos parâmetros habituais da minha escrita, mas que me acompanha desde a infância: a fascinante dúvida sobre se existe ou não vida para além do nosso planeta.
Confesso que sou leitora assídua do nosso colaborador que, todas as semanas nas páginas do O Ponney, nos traz crónicas incríveis sobre o Cosmos; as suas palavras despertam-me sempre uma paixão antiga. Desta vez, decidi juntar-me à conversa para explorar esta grande questão: afinal, o que existirá para lá da Terra?
Desde miúda que tenho o hábito de contemplar o firmamento noturno. Beneficio do privilégio de residir num local resguardado da poluição luminosa, onde o céu ainda se manifesta em todo o seu esplendor. Não possuo os meios técnicos necessários para observar o cosmos com precisão científica, mas a verdade é que já avistei nos céus fenómenos singulares, cuja assinatura não parece pertencer a este mundo.
Estaremos cada vez mais próximos da verdade? E, se estivermos, o que implicaria para a humanidade uma revelação total? Que impacto profundo causaria nas fundações da própria religião?Estas interrogações não são de hoje. Se recuarmos às escrituras antigas, encontramos mistérios semelhantes que a própria Igreja preferiu deixar na penumbra. No apócrifo Livro de Henoque, o profeta relata ter sido elevado ao cosmos, descrevendo que "uma nuvem me chamou, uma névoa me envolveu e o curso das estrelas e os relâmpagos me impeliram". Também o profeta Ezequiel chocou a Antiguidade com a sua visão de um engenho celestial: "Olhei, e vi quatro rodas junto aos querubins... e o aspeto das rodas era como o brilho de pedra de berilo". Estariam estes profetas a descrever o divino ou, com as palavras que tinham à época, a relatar encontros com naves e seres de outras paragens? A curiosidade humana e o vislumbre do inexplicável sempre caminharam lado a lado.
Recentemente, esta temática voltou a acender-se em mim devido à nova longa-metragem do icónico realizador Steven Spielberg sobre o "dia da revelação". Por motivos de saúde, não me foi possível deslocar ao Fórum Coimbra logo na estreia, nem a qualquer outra sala da região. Como tantas vezes acontece, quando o público esgota as plateias num ápice, as fitas são retiradas de cartaz mal a afluência desce. Assim que recuperei as forças e me dirigi ao cinema, a obra já tinha saído de exibição. Acabei por ver, na altura, um dos piores filmes da minha vida, mas não perdi a esperança mesmo depois da terrível frustração.
Contudo, a persistência venceu a desventura. Ontem, longe de Coimbra, consegui finalmente assistir à fita de Spielberg. No rescaldo da sessão, avaliei a obra: face a tudo o que tem vindo a público no panorama internacional, considero que a narrativa poderia estar um pouco mais completa. Ainda assim, a essência do mistério sobrevivia no ecrã. O realizador optou por um final aberto. Estará à espera que o mundo real traga novas evidências? Ou haverá o eterno receio do sistema em fazer demasiadas revelações ou ainda inaugurar uma nova saga.
O ecrã apagou-se por volta da meia-noite. Saí da sala e dirigi-me ao parque de estacionamento do centro comercial, acompanhada pelo meu marido, pronta para regressar a casa. Foi então que o insólito aconteceu. A meio do percurso para o automóvel, o piso subterrâneo mergulhou numa escuridão absoluta. Atónitos, demos várias voltas naquele labirinto de cimento já deserto de carros e pessoas, na esperança de descortinar uma réstia de luz ou uma cancela aberta. No auge do desespero, decidimos recorrer ao telemóvel para alertar as autoridades. Para nosso espanto, estávamos sem qualquer sinal de rede.
Guiados apenas pelo feixe dos faróis do carro, subimos mais um piso. Inspecionei as entradas interiores do centro comercial à procura de uma campainha, de uma saída de emergência transitável ou de um vigia. Nada. O silêncio era total e a escuridão medonha. É nestas horas de isolamento forçado que percebemos o poder avassalador que a nossa mente tem de nos conduzir a caminhos inesperados.
Bastam dez minutos sem rede, sem luz e sem uma saída à vista para que o verniz da civilização estale. O desespero instala-se e a imaginação desgoverna-se. Depois de duas horas a absorver um enredo sobre encontros imediatos e conspirações governamentais, a minha mente viajou instantaneamente para cenários de abduções misteriosas e segredos da Área 51. No momento em que começava a mentalizar-me de que iria passar a noite trancada num subterrâneo deserto e que a minha mãe acordaria em casa sem saber de mim, avistei ao longe uma pequena luz a dançar no escuro.
Afinal, era a nossa própria "noite da revelação". Aquela luz não pertencia a um ser de outro planeta pronto para nos examinar, mas sim ao segurança do complexo, que se aproximou para nos informar que as saídas estavam bloqueadas por tempo indeterminado devido a testes na rede elétrica.
O meu marido, que habitualmente consegue ser a minha âncora nos momentos de maior tensão, impôs a razão perante o absurdo da situação. E estava no seu direito. Se havia testes agendados para a madrugada, os utentes do cinema deveriam ter sido avisados expressamente para não estacionar nas zonas subterrâneas. Ficámos encurralados: sem luzes que nos indicassem saídas de emergência, sem rede móvel e com um funcionário visivelmente desesperado em mãos. Valeu-nos a persistência do vigilante que, após várias tentativas de comunicação através de um walkie-talkie, conseguiu que nos abrissem uma das saídas de emergência para podermos, finalmente, tomar o rumo de casa.
Lembrou-me imediatamente as cenas de uma libertação após termos sido enclausurados num terceiro piso de um estacionamento subterrâneo.
Digam lá que, entre as teorias do cosmos e as rasteiras da engenharia elétrica, esta não foi uma noite cheia de revelações?
Boas férias a todos!
Manuela Jones
