O DIABO VESTE PODER

A polémica que abala o mundo inteiro e pouco falada em Portugal, coloca Jeffrey Epstein, acusado de tráfico sexual de menores, abuso e exploração sexual de menores e suspeito de canibalismo, num dos casos criminais mais mediáticos e perturbadores do século XXI e que envolve grandes figuras internacionais, como o caso do presidente dos EUA, Donald Trump.
“Eu não sou um predador sexual, sou um criminoso, é a diferença entre um assassino e uma pessoa que rouba um bagel.” - Jeffrey Epstein.
Os dados sobre abuso sexual nos séculos XX e XXI mostram uma grande mudança, não na ocorrência no crime, mas na maneira como é denunciado. No século XX existiu um maior silêncio institucional, enquanto o século XXI, está marcado com uma maior abertura e visibilidade, movimentos de denúncia pública e além disso o reconhecimento de que também o homem é vítima de assédio e violência sexual. Este novo contexto permitiu que casos como o de Jeffrey Epstein ganhassem dimensão internacional, revelando padrões de abuso antes sistematicamente ignorados.
Nascido a 20 de janeiro de 1953, iniciou a sua carreira profissional como professor. Consecutivamente iniciou no setor bancário e financeiro, passando a prestar serviços de consultoria tributária e patrimonial a indivíduos extremamente ricos. Foi neste contexto que construiu um círculo social de elite, frequentando ambientes onde se cruzava a política, os negócios e o entretenimento. Esta rede de contactos viria a tornar-se um dos elementos centrais do escândalo.
O caso Epstein ultrapassou a dimensão criminal individual e transformou-se num fenómeno de impacto global. Expôs falhas estruturais nos sistemas jurídico, político e financeiro, foi alvo de questões sobre desigualdade na aplicação da lei e sobre a influência exercida por figuras de alto estatuto.
Os chamados “Epstein Files” constituem um vasto conjunto de documentos - registos judiciais, provas, depoimentos, e-mails, fotografias, vídeos e outros materiais apreendidos - relacionados com as investigações. A 19 de novembro de 2025 Donald Trump oficializou a Lei de Transparência dos Arquivos Epstein, que exigia a divulgação dos documentos. De 19 de dezembro de 2025 a 17 de fevereiro de 2026, o Departamento da Justiça dos EUA, divulgou 3 milhões de documentos, além disso entregou uma lista com cerca de 300 nomes mencionados na investigação. Importa sublinhar que a presença de um nome nesses documentos não significa, por si só, envolvimento criminal, mas a associação a Epstein tornou-se suficiente para desencadear indignação pública.
A rede de Jeffrey Epstein operava de forma altamente organizada. A sua principal cúmplice, Ghislaine Maxwell, coordenava o grupo de recrutadores, havia ainda outras mulheres que atuavam como assistentes, garantindo que o fluxo de vítimas continuasse. Em alguns casos, Epstein oferecia “recompensas” às jovens para que levassem amigas, o que gerava facilmente novas vítimas.
As adolescentes eram escolhidas cuidadosamente e deveriam ser vulneráveis, com dificuldades familiares ou financeiras, de seguida, eram atraídas com promessas de emprego ou apoio monetário. Uma vez recrutadas, eram forçadas a participar em atos sexuais com Epstein e, por vezes, com convidados de elite. A ilha funcionava como um refúgio privado onde estes crimes ocorriam longe das autoridades, sendo usada regularmente para abusos, festas exclusivas e encontros secretos.
Entre as figuras publicas referidas nos ficheiros encontram-se nomes como Bill Clinton, antigo presidente dos EUA, citado centenas de vezes nos ficheiros, é mostrado numa fotografia com uma vitima de abuso sexual, este já tinha estado envolvido em outro escândalo sexual durante a presidência, entre 1995 e 1997, com a estagiária Monica Lewinsky. Donald Trump, atual presidente dos EUA, acusado de abusar sexualmente uma menor de 13 anos. André Mountbatten-Windsor (referente à família real britânica), antigo príncipe e duque de York, acusado de abuso de menor, manteve uma relação próxima e íntima com Jeffrey durante vários anos.
Em 2019, Jeffrey Epstein suicidou-se na cela de uma prisão federal em Nova York, onde aguardava julgamento. O que intensificou ainda mais o debate público, alimentou desconfianças e reforçou a percepção que o caso estava longe de estar encerrado. A ex-companheira de Epstein, Ghislaine Maxwell, em 2021, acabou condenada por tráfico sexual de menores, tornando-se a única figura do círculo próximo de Epstein a enfrentar uma condenação penal significativa até ao momento.
Mais do que a história de um homem, o caso Epstein tornou-se um espelho das fragilidades institucionais contemporâneas. Mostrou como a riqueza, a influência e a proximidade ao poder podem moldar trajetórias judiciais e como a responsabilização, em certos contextos, não é distribuída de forma igual. Prova disto é também o Caso Vaticano que conta com alegações de encobrimento de crimes por parte da Igreja e o caso do Banco Mundial, onde investigações internas revelaram casos de assédio e discriminação, mostrando que mesmo instituições globais e influentes não estão imunes a falhas na supervisão e na responsabilização.
Entre vítimas, silêncio institucional e redes de elite, permanece uma pergunta que continua a ecoar: até que ponto as instituições de poder conseguem realmente enfrentar aqueles que operam no topo da hierarquia social, tendo as próprias organizações de poder casos flagrantes de assédio no seu interior?
Iara Santos
20-02-2026
