ENTRE O “ALCOOLÍMETRO” DE RECINTO E O SILÊNCIO DA REITORIA DA UC

A comunidade académica de Coimbra enfrenta um duplo debate sobre segurança e conduta estudantil, após a denúncia de crimes violentos nas imediações da Queima das Fitas e a exposição de discursos de ódio em plataformas digitais de estudantes.
A Polícia Judiciária (PJ) mantém em curso investigações relativas a duas queixas de violação apresentadas por estudantes, cujos episódios ocorreram nas imediações da Praça da Canção durante a última edição da Queima das Fitas. As ocorrências, tratadas pelas autoridades como casos sem ligação direta entre si, motivaram o reforço da iluminação e do patrulhamento no perímetro exterior do recinto.
Contudo, a dimensão pública do caso foi ampliada pelas declarações de Nuno Cordeiro, supervisor da equipa de segurança privada do evento, à Rádio Universidade de Coimbra (RUC). O responsável afirmou que «as pessoas têm de ser mais moderadas no consumo de álcool», referindo ainda que as vítimas «não estavam propriamente sóbrias». O posicionamento gerou contestação imediata da comunidade e de organizações de direitos humanos, que acusaram a estrutura de segurança de transferir a responsabilidade dos crimes violentos para o comportamento das próprias vítimas, relativizando a eficácia do investimento na proteção dos utentes.
Do Recinto ao Digital: As Mensagens de Ódio Denunciadas ao DIAP
A crise de segurança estendeu-se ao ambiente digital da academia com a denúncia formal junto do Ministério Público (DIAP) de um grupo de WhatsApp com cerca de 800 membros, composto maioritariamente por estudantes de Coimbra. A partilha de um ficheiro de áudio com cerca de cinco minutos expôs um encadeamento de intervenções com conteúdos de teor explicitamente racista, machista, xenófobo e de apologia direta à violência sexual.
O caso motivou uma onda de indignação nas estruturas representativas dos estudantes e forçou a intervenção das autoridades judiciais para apuramento de responsabilidades criminais por difamação, discriminação e incitamento à violência.
O Jogo de Reações: A Indignação da AAC vs. A Prudência Estatutária da Reitoria
Perante a gravidade cumulativa das ocorrências na principal festa académica e no seio da comunidade digital, as duas principais cúpulas da academia de Coimbra adotaram posturas politicamente simétricas:
1_A Associação Académica de Coimbra (AAC): A Direção-Geral da AAC apressou-se a emitir comunicados públicos de repúdio veemente, classificando as mensagens do grupo de WhatsApp como «um atentado flagrante aos valores da liberdade e igualdade» e as declarações do segurança da Queima como inadmissíveis. Na prática, a resposta da AAC seguiu o manual clássico do ativismo estudantil: exigiu a identificação e punição urgente dos culpados, agendou debates e mesas-redondas para discutir o "racismo estrutural" e prometeu implementar medidas pedagógicas rigorosas. Contudo, no que toca à gestão direta do recinto da Queima — cuja comissão organizadora integra a própria associação —, a AAC limitou-se a endossar o reforço de postes de iluminação e a exigir pedidos de desculpa à empresa de segurança subcontratada.
2_A Reitoria da Universidade de Coimbra (UC): Por sua vez, a equipa reitoral optou por uma estratégia de isolamento burocrático e contenção de danos na imagem secular da instituição. Através da Provedoria do Estudante, a Universidade de Coimbra emitiu notas genéricas rejeitando discursos de ódio, mas remeteu qualquer ação punitiva imediata para o desfecho do inquérito judicial.
A tese reitoral assenta numa prudência cirúrgica: como o áudio circulou numa plataforma de conversação privada e as alegadas violações ocorreram nas imediações (e não no interior estrito) do parque, a Reitoria prefere aguardar que o DIAP e a Polícia Judiciária façam o trabalho de investigação. Foram abertas diligências internas de averiguação a passo burocrático que, ao contrário do processo criminal, têm a enorme vantagem institucional de não fazer ruído nas conferências de imprensa.
Tratando crimes de violência e discriminação coletiva como desvios estritamente individuais, a Reitoria garante que os valores humanistas da UC permanecem intactos nos panfletos promocionais da universidade. Enquanto os relatórios internos continuam a ser redigidos e as atas se acumulam, os alunos aguardam para saber se o próximo ano letivo trará sanções exemplares ou apenas novas lâmpadas para os caminhos escuros do Mondego.
FG
11-09-2026
