A MARATONA NA BAIXA COM PROVAS DE ATLETISMO

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A iminente reorganização da rede dos Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra (SMTUC) vai redesenhar a mobilidade no centro histórico. O plano de integração com o novo metroBus elimina circuitos diretos e introduz transbordos obrigatórios.

A reconfiguração das linhas, motivada pela expansão do metroBus à Praça da República e a Coimbra-B, estipula que 3.840 viagens diárias passem a exigir transbordo na Baixa. Adicionalmente, outras 530 viagens diárias deixam de contar com os autocarros tradicionais, sendo transferidas integralmente para o sistema de canal dedicado do metroBus .

A alteração viária foca-se na reconfiguração do trânsito na Rua da Sofia e eixos adjacentes. Com várias linhas a cessarem a sua circulação contínua entre o Arnado e a Praça 8 de Maio, os passageiros oriundos das periferias deixam de ter acesso direto ao coração comercial da cidade.

Os 400 Metros de Obstáculos entre Paragens

A principal fricção técnica do novo modelo reside na distância geográfica colocada entre os pontos de paragem dos SMTUC e as plataformas de embarque do metroBus. Na zona do Arnado, a descontinuidade dos percursos obriga os utentes a percorrer mais de 400 metros a pé na via pública para efetuar a ligação entre transportes.

A geometria desta solução ignora as barreiras físicas para os segmentos mais vulneráveis da população. Para idosos com dificuldades de locomoção, cidadãos com mobilidade reduzida ou utilizadores que transportem carrinhos de crianças e volumes de compras, a transferência entre veículos deixa de ser um ato imediato na mesma plataforma para se transformar num trajeto pedonal autónomo sob as condições atmosféricas do momento.

O "Empurrão" para o Passe Intermodal

A par da barreira física, a reorganização introduz uma alteração na estrutura tarifária. A necessidade de combinar os autocarros municipais com a infraestrutura da Metro Mondego está a "empurrar" os idosos e reformados para o passe intermodal, cujo custo se fixa nos 20 euros mensais.

Este movimento invalida as assinaturas monomodais mais baratas ou os passes sociais de âmbito estritamente municipal que até aqui asseguram a deslocação global no concelho. Os utentes veem-se na contingência de aderir ao novo título combinado para realizarem exatamente o mesmo percurso diário, pagando mais para efetuar uma viagem que agora exige duas validações e uma caminhada intermédia.

Desconhecimento Técnico ou Opção de Gestão?

O desenho desta operação de transbordo no nó do Arnado coloca o executivo municipal perante duas leituras administrativas:

1_A hipótese do desconhecimento: O planeamento da rede pode ter sido elaborado com base em matrizes puramente estatísticas de fluxos de tráfego, sem que a tutela tenha validado no terreno a topografia, a distância real entre paragens e o perfil demográfico envelhecido dos passageiros que utilizam a Baixa.

2_A hipótese da falta de vontade: A engenharia de tráfego pode ter optado conscientemente por sacrificar a acessibilidade direta dos cidadãos em prol da desobstrução automóvel da Rua da Sofia, preferindo transferir o esforço logístico da mudança de transporte para o utilizador final em vez de criar interfaces cobertas e partilhadas entre os SMTUC e o metroBus.

 

O “Evangelho da Eficiência” Segundo o Conselho de Administração dos SMTUC

Perante a perspetiva de transformar a terceira idade de Coimbra numa comitiva de marchadores olímpicos, o Conselho de Administração dos SMTUC apressou-se a fundamentar a engenharia por trás do nó do Arnado. Segundo a versão oficial, a caminhada forçada de 400 metros não é um erro de planeamento, mas sim uma brilhante solução de «otimização intermodal e desobstrução do canal histórico».

A administração argumenta que a eliminação dos autocarros na Rua da Sofia vai «devolver o espaço público aos cidadãos» — presumivelmente obrigando-os a usá-lo intensamente a pé, faça sol ou faça chuva. Para os técnicos dos transportes urbanos, o transbordo a céu aberto e a subsequente ginástica de dupla validação de passes servem apenas para «racionalizar a oferta e garantir a fluidez do metroBus».

Na prática, o Conselho de Administração parece defender a tese revolucionária de que o transporte público ideal é aquele em que o passageiro faz metade do percurso pelos seus próprios meios, poupando assim os travões da frota municipal e promovendo o envelhecimento ativo na Baixa.

 

FG

11-09-2026