Da Conchada até à Baixa

da conchada a baixa 3

 

Dou hoje por concluída a intervenção que me propus levar a cabo com o título em referência, deixando, para este final, a Conchada dos anos sessenta. Sem que vá ao fundo da questão, refiro a precariedade que existia no seu Bairro Social, também designado Bairro da Misericórdia, entidade que ali fundou um Centro de apoio, enquanto a Câmara intervinha no tocante ao realojamento de várias famílias.

A nascente e a sul deste lugar vamos encontrar um agregado habitacional diferenciado, onde uma parte dos imóveis eram pertença de pessoas conceituadas na nossa urbe, das quais se destacavam, entre outras, as famílias Jardim, Brinca, Castro Pita e Cortesão. Paralelamente, sempre aqui existiram estabelecimentos comerciais, alguns de pequeno vulto, mas que respondiam às necessidades básicas dos moradores. Era o caso, da drogaria do senhor Aires, das mercearias do senhor Almeida e do senhor Ventura, da taberna e mercearia do senhor Agostinho, da papelaria da D. Ana, do talho do senhor Chico, da venda da Senhora Prazeres e da marcenaria do senhor Mota. A complementar, ainda o café Infante, a padaria da Conchada e a barbearia.  

Uma das grandes referências era o prestigiado Colégio S. José, que pertencia à Ordem Dominicana, e que, ao longo de muitos anos teve como directora Madre Sameiro, uma conceituada religiosa daquela congregação. Não esqueço as serenatas que ali íamos fazer, com as guitarras do Fernando Dourado e do Rolim, a viola do Idálio e as vozes de quantos cantavam! Do S. José nunca trouxemos o bolo que, noutros lugares sempre nos chegava, descido por um cestinho da janela, onde as luzes, em agradecimento, então apagavam e acendiam. Nunca conseguimos retribuir, mandando de volta o fado manuscrito. Madre Sameiro era irredutível!    

Ao finalizar esta ronda, deixo a estória sobre a qual valerá a pena reflectir, onde intervém um grupo de mulheres que, há muitos anos, tantas vezes desceu e subiu a Ladeira do Carmo, no decurso de um árduo e penoso trabalho. Quem tal me narrou foi, Maria, nascida há 83 anos na rua Direita e a viver na Conchada desde que começou o Bota Abaixo. Sem nos conhecermos de lado nenhum, encontrámo-nos casualmente duas vezes, ao descer as escadas junto às Patelas. Da última, ao virar da Cerca de S. Bernardo, apontou para aquele muro alto, em pedra, recordando: - Este muro tem oitenta anos, e foi a minha mãe, com outras trabalhadoras que durante semanas, em canastras à cabeça, carregaram a terra e o entulho que foi preciso tirar para nivelar a barreira e fazer os alicerces, indo depois, por aqui abaixo, despejá-las nas camionetas que esperavam na Rua da Sofia. Um degredo contou-me ela!

Até aos três anos, Maria ficou com a avó e só aos domingos sentia o colo da mãe quando esta, para arranjar mais uns tostões, a levava consigo ao Choupal, onde apanhava uns ramitos de louro, para vender no Mercado. Como era proibido colhê-lo, os guardas florestais corriam muitas vezes atrás dela que, para não ser multada, tinha de o atirar para o rio. O meu silêncio de constrangimento foi na altura a resposta, tendo-me ela confessado em sufoco : - Desculpe o desabafo, mas eu trazia isto cá dentro há tanto tempo, e precisava de o contar a alguém que me ouvisse!

António Castelo Branco