Trapaças & Ficções – O Anúncio

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Quando, em Maio de 2011, em consequência do memorando de entendimento, se iniciou o programa de ajustamento, quase todos os portugueses sabiam dos motivos por que foi necessário recorrer a “auxílio externo”: a Pátria andava com “buracos” a mais, uns aparentes e muitos outros ocultados que, entretanto, ou já se revelaram ou ainda se hão-de revelar - assim o pretenda a governação, independentemente da «cor» ou das «cores» no poleiro.

Por essa altura, logo a troika verbalizou, como se não o soubéssemos, que a economia andava enfermada e que era necessário pulso de ferro para recuperar o país, europeu do sul, de maus costumes e brandos hábitos – que andava a girar ao contrário! E começou-se logo pelo mais fácil: mexer nos direitos adquiridos dos trabalhadores do pobre povo, especialmente nos salários e nas prestações sociais do povo pobre.

[Como se fôssemos um tubo de ensaio, utilizado para “advertir” outros “desregrados” das consequências que advêm de governações desastrosas.]

Hoje, passados quase oito anos, tornou-se quase obrigatório sair à rua (especialmente quem não é ou não pode ser dado a emigrações), pelo menos para chamar à atenção dos “acomodados” que as coisas continuam mal, que nos sentimos rasgados por dentro, que os euros para o “pão” não chegam. Independentemente de se ser da esquerda, do centro, da direita.

[Ninguém ouve o Estado debater se não haverá deputados a mais, vereadores a mais; ninguém entende por que motivos ainda não foram presos todos os responsáveis pelos “buracos”; ninguém engole as despesas e as presenças fictícias lá para os lados do «hemiciclo»; ninguém investiga os “compadrios” e as “malandragens” nos municípios; ninguém faz “tratamento” rigoroso às gordas despesas públicas desnecessárias; ninguém condena, mesmo com ganas de condenar, a corrupção…]  

Vem isto a propósito de um anúncio que vi um dia destes por mero acaso, num portal de emprego, que leva a concluir que algumas “Ordens” andam distraídas e que Suas Excelências os nossos Primeiros-Ministros, ou andam desatentos ou mal coadjuvados, em determinadas tutelas.

« … Empresa Multinacional sediada em território português procura Engenheiro Civil com licenciatura Pré-Bolonha, para exercer o cargo de Director de Produção; Proactivo e resiliente ao stress; Boa capacidade de comunicação e de resolução de problemas inesperados; Domínio total do Código dos Contratos Públicos; Domínio total de todos os programas informáticos utilizados no Ramo e das plataformas; Disponibilidade para deslocações periódicas ao estrangeiro; Fluente em inglês, francês, alemão e mandaria (factor eliminatório); 10 anos comprovados de experiência na função; viatura própria.

Oferece-se contrato de trabalho com isenção de horário, por tempo indeterminado; possibilidade de passar algum tempo com a família quando se encontrar em território nacional; possibilidade de evolução na carreira; Ordenado de 1 000,00€/mês brutos + subsídio de refeição + subsídio de combustível; 50% do valor das deslocações ao estrangeiro; Prémios de Produção de vez em quando, de acordo com os montantes em vigor na Empresa; Jantar de Natal … »

Depois de ter lido este anúncio virei-me do avesso e evitei fazer qualquer comentário com quem quer que fosse. Mas questionei-me sobre o motivo por que ainda não se viram os engenheiros civis nas ruas - de norte a sul e nas ilhas -, nem o Bastonário da Ordem deles a ser mais interventivo e reivindicativo, especialmente na comunicação social.

Jorge Sá

(Jorge Sá não respeita o AO90)

(Imagem retirada da net)