O Sorriso das Pétalas Amarelas – A Reprimenda

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 A sua mãe, naquele seu jeito de fada e deusa que ele tinha o privilégio de, orgulhoso, compartilhar com a família e com os amigos mais chegados, aconselhava com um brilhozinho nos olhos que se deveriam respeitar sempre os outros, porque era uma forma de se respeitarem a si próprios. Mesmo que houvesse uma ou outra discórdia nas brincadeiras e nos pensamentos e nas ideologias (pormenor sobre o qual ainda se falava muito de surdina, devido às contingências).

 

E ele e os familiares, e os amigos, ainda meninos, discordavam, quando em vez, com alguns dos seus conselhos sem qualquer intenção mal-intencionada - apenas porque discordar, quando se é menino, acicata a têmpera - com reprovação do olhar de sua mãe, apesar do sorriso estampado no rosto dela enquanto ofertava a todos em bandeja de prata fatias de bolo mármore acompanhadas de copos de sumo de abacaxi com um adocicado natural.

 

Uma tarde, numa daquelas tardes de férias escolares em que conseguiu reunir cinco amigos para uma divertida partida de “monopoly”, calhou-lhe ser o «banqueiro». A mãe observava divertida o envolvimento dos miúdos no jogo, a sorte que os dados proporcionavam a cada qual, a capacidade intrínseca para negociar «bairros» quando se chegava a essa fase do jogo, enquanto se mantinha atenta a ver se não lhes faltava bolo mármore ou sumo de abacaxi. E, por vezes, dava a sua alfinetada a tentar espicaçar os menos audazes em termos de negociação de «bairros».

 

Pois, numa dessas tardes de divertimento, a sua mãe molestou-o com uma das maiores reprimendas de que ele se recordava, para sua vergonha, mesmo em frente aos seus estimados amigos da época. Percebeu a mãe, estando ele a necessitar de 10 000$00 para “meter” hotéis no rossio e na rua augusta - o «bairro» mais caro do “monopoly” e que lhe calhou em sorte – olhou ele com disfarce aprimorado para as “notas” do «banco», um olhar sôfrego, e levantou a mão mesmo com apetite de surripiar pela calada o dinheiro de que necessitava para a «empreitada» no «bairro». E recorda-se como se fosse hoje: levou uma palmada na mão enquanto ouvia «Nã, nã, meu menino! O dinheiro do banco é de todos e não apenas teu! Se não tens dinheiro para os hotéis, espera pela tua sorte ou pelo teu azar, mas não fazes batota!».

 

Fizeram um intervalo. Os seus amigos sorriram e “atiraram-se” ao bolo e ao sumo. Ele amuou. Depois, o jogo continuou e ele perdeu. E, depois desse episódio, em qualquer jogo que tal o exigisse, nunca mais ele desejou ser «banqueiro», como que escondendo-se por detrás da sua vergonha. Porque desejar pode implicar querer ter o que não se tem e não se pode ter e a sua mãe ensinou-lhe os perigos que de aí podem advir, se não se opta em andar de acordo com a integridade dos caminhos.

 

Luís Gil Torga

Imagem retirada da net