NOVO ANO ESCOLAR OU O MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO

Arrojaram-se as portas das escolas e o país voltou a ouvir o doce som das mochilas a bater nas costas e dos pais a suspirar de alívio. Mas este arranque letivo de 2026/2027 traz o selo de qualidade do Ministério da Educação: inovação, suspense e muita matemática criativa.
A Nova Física Escolar
A grande novidade deste ano é que o Ministério decidiu aplicar a teoria da relatividade ao calendário. O Pré-escolar e os três Ciclos básicos arrancaram entre 11 e 15 de Setembro. Já os alunos do Ensino Secundário ganharam um bónus com o início adiado para 21 de Setembro.
O motivo oficial? O Portal do Governo, com aquela transparência que o caracteriza, explica que foi preciso "compatibilizar" o calendário com a época extraordinária de Exames Nacionais. Traduzindo do “politiquês” para português corrente: os computadores da correção digital deram o "berro" mais cedo, gerando falhas no sistema, e foi preciso dar tempo aos professores corretores para avaliarem os exames antes que as escolas colapsassem. Nada como usar a tecnologia do século XXI para nos fazer trabalhar ao ritmo do século XIX.
O Mistério dos 2500 Horários Fantasma
O Sr. Ministro veio a público garantir que está tudo controlado, confirmando apenas a ligeira "nuance" de existirem cerca de 1250 horários completos por preencher (que aumentam para 2500 se contarmos os incompletos).
O EDULOG, esse desmancha-prazeres da estatística, diz que as reservas de professores vão esgotar-se totalmente em quase todas as disciplinas até ao fim da década.
Mas não sejamos pessimistas!
Olhando para os dados atuais, onde 40.000 alunos terminaram períodos letivos, mas com, pelo menos, não tivessem um professor. Percebemos a genialidade da estratégia (ou a falta dela) se não há professores de Física ou Matemática, os alunos não reprovam a essas disciplinas. É a eficácia máxima no combate ao insucesso escolar!
Até a OCDE veio intrometer-se, revelando que 44% dos alunos portugueses andam em escolas onde os próprios diretores admitem que a falta de docentes prejudica o ensino. Claramente, a OCDE não percebe nada de autonomia e resiliência lusa.
Computadores sem Tomada, Escolas sem Ar
A transição digital continua em velocidade de cruzeiro, mas numa estrada cheia de buracos. Há portáteis distribuídos para todos, mas faltam técnicos de informática para os ligar e, nalguns casos, tomadas elétricas que aguentem a carga.
Para compensar o excesso de ecrãs quentes, as infraestruturas continuam fiéis à tradição, onde as salas não têm isolamento térmico e ar condicionado. No Inverno gelam e no Verão derretem.
É a preparação ideal para os estudantes que queiram emigrar para a Finlândia ou para o Dubai. E se o preço das casas em Lisboa, Setúbal ou Algarve impede os professores de aceitarem colocações, a solução das escolas tem sido ainda mais admirável, que é o de pedirem horas extraordinárias ao pessoal existente. Afinal, quem precisa de dormir quando se tem a vocação de ensinar?
Inteligência Artificial contra a Fadiga do Amianto
Para demonstrar que estamos na vanguarda, o Ministério anunciou o foco renovado na literacia mediática e no «uso ético da Inteligência Artificial» na sala de aula. É reconfortante saber que um aluno pode usar o ChatGPT para fazer um trabalho escolar, enquanto o teto da sala de aula — uma das 40 escolas identificadas com amianto remanescente — lhe liberta suaves fibras de amianto sobre a cabeça.
A tutela promete um plano urgente para remover o amianto e instalar ventilação mecânica até ao fim do primeiro período (que termina a 15 de Dezembro, antes de irmos todos comer rabanadas nas férias de Natal até 3 de Janeiro). Dizem que a falta de ventilação causa "fadiga e falta de concentração" em edifícios antigos. Nós achávamos que a fadiga vinha de estudar a 35 graus celsius numa sala pré-fabricada, mas a culpa é mesmo do ar interior.
Outubro: O Mês do "Vai ou Racha"
Para fechar o ramalhete da estabilidade, o Governo promete negociar em Outubro a revisão da carreira docente e a vinculação de professores para fixar profissionais nas zonas caras. Se as negociações falharem, o fantasma das greves volta a pairar.
Mas não se preocupem, se o ano letivo for interrompido por greves, pelo menos os manuais do secundário já são gratuitos e há alargamento de refeições escolares nas férias. Se não houver futuro garantido pela educação, ao menos que haja almoço.
Bom ano letivo a todos! E que a Inteligência Artificial nos guie, já que a humana parece estar de baixa médica.
Beatriz Silva
Professora
