ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA ESCOLAR

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A pergunta que os responsáveis pela Educação em Portugal deveriam fazer sempre, antes de tomarem medidas de olhos fechado era: « Para que Futuro estamos, afinal, a caminhar?»


Segundo um relatório do British Council, 65% dos estudantes de hoje trabalharão em empregos que ainda não existem. Mas fiquem descansados ou não. Quem desenha a Educação tradicional continua agarrado a valores do século XIX sem fazer a menor ideia de quais serão as profissões valorizadas amanhã.


O nosso sistema educativo orgulha-se de ignorar qualquer simulação da realidade. Mantemo-nos fiéis ao modelo de séculos muito lá no passado com palestras estáticas, sebentas amarelecidas pelo tempo e uma memorização desenfreada centrada no professor. Depois assistimos ao desastre das consequências.


O Tapete Rolante Industrial na Educação


Os alunos entram na escola básica e saem no ensino superior sem qualquer preparação para antecipar os choques do mundo real. O modelo atual continua a venerar o raciocínio puramente lógico-dedutivo, medido por aquele Quociente de Inteligência (QI) que tanto brilha em exames padronizados, mas que falha redondamente na vida prática.


Fomos formatados num processo inspirado no "tapete rolante industrial" do século XX. O aluno entra no tapete com barreiras e regras iguais para todos, é devidamente "alfabetizado" e "numeratizado" em série, e sai pronto para produzir. Na altura, este formato cumpriu a sua função. O grande inimigo da humanidade era a carência de produtos e bens, pelo que educar os seres humanos para serem máquinas de produção em massa fazia todo o sentido.


O problema é que o século XXI já não sofre de falta de capacidade produtiva. O drama atual é a má distribuição da riqueza. Dados da Oxfam revelam que o 1% mais rico da população mundial detém mais riqueza do que os restantes 99% juntos. É desta disparidade que nascem as grandes crises migratórias e as tensões sociais que os nossos manuais escolares tratam como meras notas de rodapé.
Ao mesmo tempo, a produção desenfreada e sem controlo ambiental trouxe-nos o colapso ecológico. O programa europeu Copernicus bate recordes sucessivos de temperaturas globais. No entanto, o sistema de ensino continua a formar soldados da produção, ignorando as consequências óbvias desta sobreaquecida engrenagem.


Guerras de Sobrevivência ou Soluços de um Mundo Velho?


No passado, a carência gerava invasões territoriais. Hoje, assistimos a conflitos como a invasão da Rússia à Ucrânia (justificada pela falta de escoamento marítimo e mercados) ou aos confrontos em Israel. São os soluços de um mundo velho. Estas guerras já não são pela sobrevivência biológica, mas sim pela manutenção do poder de vender. Uma luta cega onde os decisores políticos esquecem que a perda de vidas humanas já não compensa os lucros do comércio — exceto, claro, para quem vende o armamento.
E perante tudo isto, o que faz a escola? Continua a funcionar como uma máquina descontrolada, a despejar no mercado "produtos humanos" cujas competências já não se enquadram nas necessidades do planeta. Não fomos preparados para o 11 de Setembro, não fomos preparados para uma pandemia mortal e continuamos sem saber responder a perguntas básicas:


>E se a Inteligência Artificial controlar a geopolítica global?


>E se o trabalho humano deixar de compensar o pagamento de um ordenado face ao custo da tecnologia?

(Um cenário real, considerando que o FMI estima que a IA afetará 40% dos empregos globais).


A Revolta do Operariado Moderno


O resultado desta formatação industrial é a insatisfação crónica. O relatório Future of Jobs Report 2023, do World Economic Forum, expõe uma realidade crua: quase metade dos trabalhadores mundiais quer mudar de empresa (42% segundo a CultureAmp e 45% segundo a Adecco). As pessoas estão fustigadas por empregos vazios de significado e por salários engolidos pela inflação.


Na outra ponta da corda, os gestores de empresas desesperam. O mercado exige-lhes milagres diários: produtos de altíssima qualidade, com ética ambiental, respeito laboral, inovação disruptiva e... preço de saldo. Uma equação matemática impossível de resolver com a mão de obra que sai das universidades.


O mesmo relatório do Fórum Económico Mundial avisa que as competências mais procuradas pelas empresas até ao final da década são o pensamento analítico, o pensamento criativo, a resiliência e a agilidade. Em suma: tudo aquilo que o ensino tradicional castiga e rotula como "distração" na sala de aula.


A missão urgente para um ensino minimamente inteligente tem de passar por injetar pensamento crítico e criativo nos currículos. É preciso integrar a tecnologia no sistema educacional de maneira prática, imaginativa e ética, deixando de tratar os alunos como robôs biológicos. Até porque, para robôs, os de silício são mais baratos e não exigem subsídio de refeição.

Marta Sampaio
Professora