LUÍSA TODI: A VOZ DE SETÚBAL QUE CONQUISTOU O MUNDO (II)
O Sacrifício e o Silêncio de uma Diva Itinerante
De Londres a Paris, de Madrid a Berlim, o continente rendeu-se à pureza e flexibilidade da voz de meio-soprano da sadina Luísa Todi. Em Paris, o seu talento dividiu a alta sociedade numa das mais célebres disputas artísticas da época: os todistas apoiavam fervorosamente a alma de Luísa, enquanto os marchesistas defendiam o virtuosismo técnico do italiano Luigi Marchesi. Mas a consagração absoluta aconteceria mais a norte.
Ao chegar à imensa e gélida Rússia, Luísa Todi aqueceu o coração da própria czarina Catarina, a Grande. A imperatriz ficou de tal forma deslumbrada com a cantora portuguesa que escolheu o seu lado na guerra de prestígio dos bastidores, cobrindo-a de joias, honrarias e fixando-a na corte de São Petersburgo com um dos contratos mais lucrativos da história da ópera.
Mas a genialidade de Luísa Todi cobrou um preço duplo, invisível aos olhos do público que a aplaudia. Ser uma diva internacional na Europa de setecentos exigia conciliar os palcos com a exigente missão de ser mãe de seis filhos. Numa apresentação de força invulgar para o seu tempo, Luísa recusou-se a deixar as crianças para trás. Os seus filhos nasceram ao ritmo das suas viagens, cruzando fronteiras desde o Porto e Guimarães até Aranjuez e Versalhes. Durante as longas e extenuantes digressões, a família transformava as carruagens numa verdadeira casa sobre rodas. Nas cortes estrangeiras, as crianças habitavam os bastidores dos palácios, educadas por preceptores e governantas privados financiados pelo sucesso da mãe, enquanto o marido desdobrava-se entre a gestão da carreira da esposa e o amparo do lar itinerante.
Nenhuma voz, contudo, dura para sempre e os aplausos dão lugar ao silêncio. A sua carreira internacional terminou inequivocamente em 1799. O ano de 1803 trouxe-lhe o golpe mais duro com a morte do seu amado marido e companheiro de viagem, Francesco. Sem o seu grande pilar, Luísa recolheu-se. Os anos finais da diva foram marcados pela penumbra, pela perda dolorosa de alguns dos seus filhos e pela solidão. Em 1822, aquela que fora a Cantora de todos os Séculos perdeu completamente a visão. Afastada do brilho dos palácios onde outrora fora celebrada, Luísa Todi faleceu em Lisboa, a 1 de outubro de 1833, com 80 anos de idade, vítima de um acidente vascular cerebral. Ironicamente, o destino reservou-lhe a derradeira mordaça do esquecimento: devido a reestruturações urbanas posteriores, os seus restos mortais jazem hoje sob o pavimento de uma cave escura na Rua do Alecrim, no Chiado.
A mulher desapareceu, mas a voz tornou-se memória eterna. Olhar hoje para o mapa de Setúbal e ver as águas da fonte a correrem livres na avenida que ostenta o seu nome é um ato de resistência cultural. Mulheres como Luísa Todi, que desafiaram as amarras do seu tempo para obrigar a Europa inteira a calar-se e a ouvir, tudo isto enquanto protegiam e criavam a sua descendência pelos caminhos do mundo, merecem ser resgatadas do esquecimento. Que o eco da sua história continue a inspirar e a vibrar em cada Luísa que caminha, livre e forte, junto às margens do Sado.
Manuela Jones

