LUÍSA TODI : A VOZ DE SETÚBAL QUE CONQUISTOU O MUNDO (I)

Quem caminha hoje pela Avenida Luísa Todi, a artéria principal e mais agitada de Setúbal, inevitavelmente depara-se com um contraste poético. Ali, no meio do jardim, a icónica Fonte do Centenário impõe-se com as suas três figuras femininas despidas, esculpidas em mármore branco de Estremoz. Representam a Terra, o Mar e a Poesia, mas carregam um simbolismo muito mais profundo. Naquela nudez alva exposta ao vento do Sado, há uma metáfora sobre a vulnerabilidade e a força.
Setúbal sempre foi uma cidade onde a liberdade é a voz do povo, um lugar que não tolera mordaças. E talvez por isso, o nome que batiza esta grande avenida faça tanto sentido. Multiplicado nas placas toponímicas e nos nomes de tantas mulheres e meninas sadinas, o apelido tornou-se parte do quotidiano. Contudo, quantos conhecem verdadeiramente a alma por detrás do mármore?
Numa pátria que tantas vezes empurra as suas maiores figuras femininas para as margens do esquecimento, a história de Luísa Todi é o testemunho vivo de que Portugal sempre teve mulheres gigantes que só foram devidamente valorizadas após a morte.
Tudo começou a 9 de janeiro de 1753, na freguesia da Anunciada. Luísa Rosa de Aguiar nasceu filha de Ana Joaquina de Almeida e de Manuel José de Aguiar, um professor de música. Foi no seio familiar que a pequena Luísa despertou para o universo dos compassos. Quando a família se mudou para a Lisboa pombalina, o destino encarregou-se de a colocar nos palcos. Antes de se consagrar como a maior cantora lírica da sua época, Luísa foi uma talentosa atriz de teatro. Estreou-se nas óperas cómicas do Teatro do Bairro Alto, onde a sua expressividade dramática e magnetismo começaram de imediato a dar nas vistas. Foi nesse ambiente que o amor e a arte se cruzaram definitivamente na sua vida.
Aos 16 anos, casou-se com Francesco Saverio Todi, um violinista de origem italiana. Num século XVIII profundamente patriarcal, onde as mulheres artistas eram frequentemente abafadas ou mal faladas pela moral da época, o papel de Francesco foi revolucionário. Longe de a tentar ofuscar, o marido reconheceu o génio excecional da esposa. Tornou-se o seu maior aliado, confidente e empresário, incentivando-a a ter aulas com o mestre David Perez e a trocar a comédia pelo canto lírico. Foi com o apelido do marido, Todi, que a jovem sadina partiu à conquista da Europa, iniciando uma rota de vitórias sem precedentes que mudaria a história da música internacional.
(Continua na próxima edição)
Manuela Jones
