AS GÉMEAS E A FALHA DE ÉTICA DOS ELEITOS

A dissociação e a negação são mecanismos de defesa fascinantes usados e abusados pelos eleitos que ferem os códigos mais elementares.
Quando um indivíduo ou uma instituição é apanhado numa teia de comportamentos disfuncionais, a primeira reação é tentar encolher os ombros, criar narrativas paralelas e fingir que o escândalo é apenas uma ilusão ótica ou uma conspiração dos inimigos. A forma como as nossas elites políticas tentaram, ao longo dos últimos anos, desvalorizar e diluir o chamado “Caso das gémeas luso-brasileiras” nas parangonas dos jornais é um compêndio de psicologia de vão de escada. Só que a realidade, por mais que a tentem recalcar, acaba sempre por vir ao de cima.
A dedução da acusação formal pelo Ministério Público contra quatro arguidos centrais — incluindo Nuno Rebelo de Sousa, o filho do ex-Presidente da República, e António Lacerda Sales, o antigo Secretário de Estado da Saúde — veio estilhaçar de vez a cortina de fumo da imunidade de gabinete. Estão acusados de crimes graves como prevaricação e abuso de poder. E embora a defesa do filho do ex-Chefe de Estado se apresse a clamar que a acusação "não tem fundamento", o despacho do Ministério Público desenha um mapa claro de como as influências de bastidor e o peso dos apelidos ilustres foram usados para garantir um tratamento de favorecimento num medicamento de quatro milhões de euros.
A nível social e psicológico, este processo expõe uma ferida narcísica profunda na nossa cidadania: a perceção dolorosa de que continuam a existir portugueses de primeira e portugueses de segunda.
No tempo do Estado Novo, tínhamos uma segregação geográfica explícita: os nascidos no Portugal Continental eram os cidadãos plenos, enquanto os que nasciam nas províncias ultramarinas eram remetidos para a segunda categoria. Em pleno século XXI, mudámos o critério, mas mantivemos a discriminação. Hoje, os "portugueses de primeira" são os que têm acesso direto ao círculo do poder, os que conseguem ativar a máquina dos favores e das "cunhas" institucionais para passar à frente de todas as listas de espera do Serviço Nacional de Saúde. Os "portugueses de segunda" são o resto da população — os pais que desesperam meses a fio por uma consulta ou por uma junta médica sem verem os seus e-mails reencaminhados com o selo da Presidência da República.
Esta gritante assimetria no tratamento é o verdadeiro adubo psicológico e eleitoral para o crescimento dos radicalismos e da extrema-direita em Portugal, personificada no Chega. O partido de André Ventura alimenta-se precisamente da revolta legítima dos cidadãos perante esta "podridão" institucional. E a culpa deste crescimento não é do eleitorado; é da gritante falta de firmeza e de higiene ética dos partidos que têm bipolarizado o poder, o PS e o PSD.
Ao longo deste processo, desde as comissões parlamentares de inquérito até às audições de secretárias e adjuntos, os dirigentes do bloco central demonstraram uma tibieza gritante. Preferiram a solidariedade partidária e institucional à condenação moral inequívoca do abuso de poder. Em vez de limparem a casa à primeira suspeita, assobiaram para o lado, permitindo que a justiça tardasse e que o descrédito no sistema democrático se instalasse.
Os psicólogos sabem que a confiança demora anos a construir e escassos segundos a desmoronar-se. O Ministério Público deu o passo factual que a política recusou dar, lembrando que ninguém está acima da lei e da Constituição. Mas o dano na saúde mental da nossa democracia já está feito.
Como diz bem o velho ditado latino: “À mulher de César não basta ser séria, é preciso parecer séria!”. Em Portugal, os decisores nem pareceram, nem foram.
E com esta opinião me fico.
Mariana Cortez
