Editorial 02/10/2026
OUTUBRO E A QUEDA DAS FALHAS POLÍTICAS
Chegámos oficialmente a Outubro, esse mês em que a tradição insiste em pintar com tons de nostalgia.
É o hall de entrada do Outono, a época áurea em que a natureza nos brinda com o desmembramento da folha e o chão se cobre de castanhos. Contudo, em Coimbra e no país, a estética da queda não se limita à botânica.
Assistimos, com uma regularidade, que já roça o tédio, a uma queda muito mais acentuada e dramática, que é a da qualidade e do escrúpulo dos nossos políticos eleitos e das instituições que nos governam.
Por outro lado a incompetência e o cinismo sobem em espiral, mas, ao contrário das folhas secas, estes não desaparecem com uma simples varridela municipal que...enfim! Acumulam-se em Diários da República, despachos e comunicados oficiais a falta de coração dos eleitos.
Esta edição de O Ponney funciona como um autêntico microscópio sobre essa podridão outonal, onde nem a nossa vetusta Universidade escapa. Pois queríamos que ao menos desse o exemplo a Portugal, mas não.
O primeiro caso arquivado na nossa auditoria leva-nos aos paradoxos da torre de marfim académica em «PASSADEIRA VERMELHA PARA MACAU E PORTA NA CARA PARA O TORGA». Analisamos o requinte geopolítico do Conselho Geral da Universidade de Coimbra, que estende a passadeira vermelha e assina laboratórios de Humanidades Digitais com a longínqua Macau, mas bate com a porta na cara do vizinho Instituto Superior Miguel Torga e do Politécnico, cortando o diálogo sem sequer justificar as "condições em falta". Um provincianismo cosmopolita que prova que é mais fácil amar quem está a onze mil quilómetros do que dialogar com quem partilha o mesmo código postal.
Descendo ao chão das vias públicas, espreitamos os fenómenos do ilusionismo intermodal em «A FALHA TÁTICA DE CONTACTLESS». Dissecamos o arranque do cartão único MOVE-C, promovido com pompa pela Comunidade Intermunicipal iniciado neste mês de Outubro. Uma engenharia de transportes tão esquizofrénica — onde o utente tem de validar o passe na paragem para o Metrobus, mas dentro do veículo se for nos SMTUC — que deixa claro que a região faria melhor se contratasse um treinador de futebol da Primeira Liga para programar a tática do sistema antes que os passageiros comecem a levar cartões vermelhos em formato de multa.
Mas o drama mais negro deste Outono — aquele que transforma a habitação num desporto de sobrevivência selvagem — é exposto em «A EFICÁCIA DA FIANÇA EM DOIS MESES». Com erros desumanos aprovados em Assembleia da República uma reforma legislativa que reduz o prazo de despejo por incumprimento para escassos dois meses e liberta as rendas na transição de contratos. Um "Plano Nacional de Expansão de Sem-Abrigo" mascarado com salvaguardas sociais burocráticas que só protegem quem já cá não estiver para ver.
No plano da ficção laboral, trazemos à estampa «A AMNÉSIA DA GERINGONÇA E O OUTUBRO VERMELHO». Desmontamos a súbita vaga de heroísmo retórico das centrais sindicais afetas à CGTP, que agendaram uma greve geral nos SMTUC para o dia 2 de Outubro. Uma demonstração de oportunismo em estado puro, onde os sindicatos que passaram os anos da Geringonça a assobiar para o lado tentam agora vir a correr de megafone em riste para colar o seu selo ao Suplemento de Agente Único — uma vitória histórica conquistada exclusivamente pela pressão do independente STTUC.
Por fim, fechamos as páginas de destaque com a nossa radiografia estudantil em «A TERAPIA DO GARRAFÃO E O CALOIRO SEM TETO». No preciso momento em que o Parque da Canção abre as portas para a Festa das Latas 2026, confrontamos o luxo do orçamento do festival com a miséria dos estudantes sufocados por quartos a 310 euros mensais. Propõe-se a anestesia da cerveja e o batuque dos desfiles para afogar as mágoas de uma geração que arrasta latas pela calçada da Alta sem saber se no final do mês terá teto para dormir ou liquidez para comprar uma lata de atum na República.
O Outono promete ser rigoroso e o vento que sopra das instituições é gélido. Mas enquanto eles continuarem a embrulhar a incompetência em jargão técnico e placebos culturais, O Ponney continuará por cá, de janela aberta, para vos mostrar o tempo que faz na verdade - como está na nossa tira de banda desenhada.
Depois temos dois artigos de opinião: um deles da nossa amiga Mariana Cortez que nos traz a questão estranha da UC.
A nossa amiga que nunca nos falta com artigo, Manuela Jones, traz-nos a continuação do seu artigo sobre Luísa Todi.
Outros artigos podem ser encontrados no nosso O Ponney
Para todos quantos entendam criticar ou elogiar, agradecemos que nos enviem para o endereço de e-mail d’O Ponney :
info@oponney.pt
Saudações conimbricenses e republicanas;
José Augusto Gomes
Diretor do jornal O Ponney
