PASSADEIRA VEREMLHA PARA MACAU E PORTA NA CARA PARA O TORGA

A diplomacia e o sentido de oportunidade da Universidade de Coimbra (UC) atingiram um patamar de sofisticação geopolítica que deixaria qualquer embaixador de carreira de boca aberta. Numa demonstração de agilidade intercontinental, a UC formalizou a criação de um laboratório comum de investigação na área das Humanidades Digitais e Ciências da Linguagem em parceria com a Escola Superior Politécnica de Macau.
São milhares de quilómetros de distância encurtados num ápice, com direito a fotografias de protocolo e discursos sobre a globalização do saber.
Contudo, se a UC demonstra ter braços longos o suficiente para abraçar o Oriente, a sua flexibilidade para estender a mão a quem partilha o mesmo código postal é substancialmente mais reduzida.
Num volte-face que caiu como uma bomba na cidade, o Conselho Geral da Universidade de Coimbra decidiu, na sua reunião ordinária de 25 de Setembro, travar a fundo a aproximação ao Instituto Politécnico de Coimbra (IPC) e afastar em absoluto qualquer cenário de integração do Instituto Superior Miguel Torga (ISMT). A deliberação, comunicada pela presidente do órgão, Maria da Glória Garcia, foi de uma crueza burocrática exemplar: «não existem condições, de momento, para prosseguir qualquer diálogo».
O mais fascinante nesta decisão é o manto de mistério que a envolve.
Quais são as tais "condições em falta"?
Quais os terríveis obstáculos técnicos que impedem sequer a abertura de conversações?
O Conselho Geral simplesmente não especifica. Remeteu-se ao silêncio dos claustros, aplicando ao Torga e ao Politécnico a versão académica do clássico "não és tu, sou eu".
Para adensar o enredo, a nota do Conselho Geral fez ainda questão de sublinhar que a hipotética integração do Instituto Miguel Torga «nunca foi abordada nem sugerida» por aquele órgão - e é aqui que deve estar a verdadeira razão desta recusa.
Um sacudir de ombros institucional quase cómico, sobretudo quando o presidente do ISMT veio a público admitir que esta rejeição foi totalmente inesperada, uma vez que o processo de fusão e aproximação vinha a ser seriamente estudado e debatido por vários responsáveis locais para garantir o futuro da instituição.
Ficamos assim perante o maravilhoso paradoxo de Coimbra: para a Reitoria e para os seus conselheiros, é manifestamente mais fácil compatibilizar visões humanísticas e linguísticas com o território de Macau do que estabelecer uma ponte de diálogo com as instituições vizinhas que operam a escassos minutos de distância.
Investigar as Humanidades além-mar é um desígnio nobre; praticar a humanidade do diálogo em Coimbra é que parece requerer condições científicas ainda não descobertas pela nossa academia.
JAG
02-10-2026
