A FALHA TÁTICA DE CONTACTLESS

Ontem no dia 1 de Outubro, a Região de Coimbra entrou oficialmente numa nova era da mobilidade com o arranque do cartão único e intermodal MOVE-C.
O projeto, desenhado pela Comunidade Intermunicipal (CIM), promete o milagre da unificação: aproximar 19 municípios e ligar quatro operadores de transportes — os SMTUC, a CP, o metroBus e a rede SIT Metropolitano. No papel, é uma maravilha da modernidade. O Ponney analisou os factos da sua implementação e ficou claro que o sistema sofre de uma gritante falta de programação e estratégia que transforma uma simples viagem de autocarro num teste de sobrevivência cognitiva.
Analisemos a bizarra "tática de jogo" que o MOVE-C impõe ao passageiro. Em vez de uma lógica unificada, o utente é confrontado com um regulamento esquizofrénico. Se o cidadão for apanhar o metroBus, a regra é clara: a validação do cartão é obrigatória NA PARAGEM, antes de entrar na composição (nas estações dedicadas). Mas se o mesmo cidadão decidir fazer o transbordo para um autocarro dos SMTUC ou da rede regional, a regra muda por completo: a validação tem de ser feita DENTRO DO VEÍCULO.
Se o passageiro se baralhar na coreografia, validar na paragem do autocarro ou entrar no metroBus a contar validar lá dentro, a tática falha e o veredicto é um bilhete de expulsão em formato de multa.
Esta gritante falta de programação sistémica deixa claro que faltou uma verdadeira liderança no planeamento do projeto. Olhando para este labirinto de validações, talvez a Região de Coimbra tivesse feito melhor se, em vez de contratar consultores de engenharia de transportes, tivesse colocado um treinador de futebol da Primeira Liga a desenhar a estratégia do MOVE-C.
Qualquer técnico de bancada sabe que não se pode jogar com duas táticas contraditórias na mesma jogada. Ou seja não se pode pedir à equipa para defender na grande área (validar dentro do autocarro) e, ao mesmo tempo, fazer pressão alta no meio-campo adversário (validar fora, na estação do metroBus). O resultado deste nó estratégico é o clássico "futebol de solteiros contra casados", onde os operadores não comunicam entre si, o sistema informático bate na trave e o utente joga a ponta-lança sozinho, a correr atrás do prejuízo de saco na mão.
Mas a comédia de balneário não fica por aqui. Entramos agora na contabilidade criativa das tarifas. O novo MOVE-C Regional custa 40€ por mês. Entretanto, o Governo lança o Passe Ferroviário Verde que, por apenas 20€, permite viajar de comboio por praticamente todo o território nacional. Ou seja: um passe regional que mal sai do Mondego custa o dobro de um passe que nos permite ir até ao Algarve.
A Comunidade Intermunicipal vende o MOVE-C como o grande passe para o futuro. Contudo, sem uma estratégia unificada que uniformize as validações e simplifique a vida a quem viaja, o cartão único arrisca-se a ser apenas um adereço tecnológico caro. Até que alguém no banco de suplentes da autarquia perceba o óbvio e decida programar o sistema com pés e cabeças, o passageiro continuará a entrar na carrinha a rezar para não levar um cartão vermelho direto do revisor. O jogo já começou ontem no dia 1, mas a eficácia... essa continua em fora de jogo.
António Ferreira das Neves
02-10-2026
