A AMNÉSIA DA GERINGONÇA E O OUTUBRO VERMELHO

4 A AMNESIA DA GERINGONCA E O OUTUBRO VERMELHO1

 

Hoje, dia 2 de Outubro foi marcada greve nos SMTUC. Mas há esclarecimentos que devem ser lembrados.

O mais recente episódio da vida laboral dos Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra (SMTUC) é um clássico instantâneo de como a demagogia consegue ser mais veloz do que qualquer autocarro elétrico da frota de autocarros em Coimbra.

O Ponney vai rebobinar o filme dos factos.

Recentemente, os motoristas dos SMTUC alcançaram uma vitória verdadeiramente histórica: a aprovação e promulgação do tão esperado Suplemento de Agente Único, que confere um acréscimo de 25% no vencimento base a quem conduz e cobra bilhetes em simultâneo. Foi o culminar de anos de braço de ferro, de pressões constantes nos corredores do poder e de diplomacia sindical intensa.

Investigando os registos factuais desta odisseia, a autoria do sucesso tem um nome bem explícito que é o STTUC (Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes Urbanos do Centro). Foi esta estrutura independente que carregou o processo às costas, que fez a pressão política necessária e que esteve presente na Assembleia da República para ver a justiça ser feita aos operacionais de Coimbra.

E onde estavam os poderosos sindicatos afetos à CGTP-IN — a armada do STAL, do STML e da FNSTFPS — durante os longos anos em que esta reivindicação apodrecia nas gavetas do Ministério?

— Silêncio absoluto.

Durante o idílico período da Geringonça, quando essas mesmas centrais sindicais tinham linha direta com os gabinetes do governo de Lisboa e uma capacidade de influência sem precedentes, o Suplemento de Agente Único parecia não constar no topo das suas preocupações metafísicas. Nessa altura, a urgência em valorizar os motoristas dos SMTUC foi metida na garagem da conveniência política. Não convinha estragar o ambiente com greves incómodas.

Pois bem, a lei foi finalmente aprovada, o dinheiro está garantido e os motoristas conseguiram o merecido reconhecimento. Qual é a reação imediata da cartilha tradicional?

Um ataque de amnésia coletiva seguido de um surto súbito de heroísmo retórico. Os sindicatos que nada fizeram resolveram convocar uma jornada de greve geral para o dia 2 de Outubro (sexta-feira - hoje), ameaçando deixar os utentes de Coimbra a pé à mercê das paragens vazias.

Os motivos invocados no manifesto da greve são uma compilação magnífica de tudo aquilo que ignoraram no passado, onde a exigência de uma valorização salarial imediata de 15% (com o mínimo de 150€), a reestruturação urgente das carreiras gerais de assistentes operacionais e técnicos, e a regulamentação dos suplementos de insalubridade e risco.

A hipocrisia é de tal ordem que atinge contornos de comédia de bastidor. Os senhores da CGTP-IN passaram anos a assobiar para o lado enquanto o STTUC fazia o trabalho braçal da negociação. Agora que a vitória está consumada e carimbada em Diário da República, os burocratas do protesto aparecem de megafone em riste a exigir tudo o que esqueceram de pedir quando tinham o poder de o exigir. É a sublime tática do "poluidor-reclamador", fingem que lutam pelo futuro dos trabalhadores, mas apenas tentam capitalizar os louros de uma colheita que foi semeada e regada por outros.

Resta aos utentes e aos motoristas dos SMTUC assistirem a este bailado demagógico no dia de hoje.

A greve até pode acontecer, o trânsito pode entupir e os relatórios da central sindical podem até cantar vitórias. Mas a única certeza factual é a desfaçatez da nossa máquina político-sindical continua a rolar a alta velocidade, sem bilhete e sem vergonha.

 

JAG

02-10-2026