Por Portas Travessas, com dedicatória!

POR PORTAS TRAVESSAS1

 

Senti o chão fugir-me debaixo dos pés quando, no 4º sábado do passado mês de Novembro, como é referenciada a periodicidade da feira das velharias de Coimbra, dei por mim a ler, na banca de um alfarrabista, a dedicatória que, em Abril de 2017, Carlos António Pinto da Costa havia escrito num exemplar do seu Por Portas Travessas, que ofertou a uma grada figura desta cidade e seu devotado amigo. Por razões de privacidade, escuso-me a referir a pessoa em questão e as razões que levaram a que esta obra e muitas outras que no mesmo local encontrei, e que pertenciam à biblioteca da dita pessoa, ali estavam à mercê de quem tivesse meia dúzia de euros para as adquirir. Ainda assim, o homem da banca acentuou-me: - Este até vale mais, pela dedicatória que tem!


Histórias por contar de miúdos da velha Baixa de Coimbra é o subtítulo que o autor tão ajustadamente dá a este repositório de vidas e de experiências, que só saberá avaliar quem por elas passou. Considero-me também eu, de alma e coração, um homem daqueles espaços que o avô imortaliza nas suas narrativas, não evidentemente com a sagacidade e argúcia dele e dos amigos que, desde a nascença, sempre enfileiraram para fazerem pela vida e assim atingirem os seus propósitos. Na realidade eu não nasci ali, mas vim, quando ainda adolescente, e foi na rua das Padeiras, mais concretamente na então Pensão Poiarense, onde, como repúblico, sempre estive hospedado e onde cresci. Daí eu identificar, tal como a eles se refere o nosso Carlos Pinto, cada um dos comerciantes, cada uma das tabernas, cada uma das lojas e dos artesãos, cada uma das peixeiras vindas da Figueira que, logo pela manhã, numa alusão a que a sua sardinha era a melhor, faziam entoar o velho pregão: levem da minha! Era efectivamente um sonho viver ali e ainda hoje, quando por lá passo, olho com uma saudade infinita para a janela que, tantos anos, foi a do meu quarto e que era, no fundo, tal como a dos outros académicos, o elo de ligação com os demais moradores da Baixinha, consubstanciado, quantas vezes, com o gaiteiro e os éférreás quando um da casa se formava e havia festa na rua.


Volvendo de novo ao conteúdo do livro, insisto não ter palavras para o classificar e deixo apenas a mensagem: leia-o quem puder, e encontrará ali a causa de uma identidade quando, a par da escrita, der conta das magníficas fotografias que a ilustram. É que em cada página, em cada episódio, em cada momento, em cada relato e em cada aventura, está narrado todo esse movimento com um realismo tal que julgamos estar a viver um mundo ficcionado por um punhado de garotos. E, de entre eles, lembro aquele grupo do Ranho ao nariz, que se encontra perpetuado na frontaria de uma casa no largo do Marmeleiro.


António Castelo Branco