OS ROUBOS DOS BADALOS

SINOS DA TORRE1

 

Em “Universidade/Urbanidade/Alta/Paço das Escolas”, sito na Internet, a propósito dos sinos da Torre da Universidade e suas funções, existem algumas contradições e afirmações, que considero inadmissíveis a uma informação correta da UC. - UMA VERDADEIRA CONFUSÃO! -
Assim: SINOS.


- “OS QUARTOS” – que suponho ser o sino do “NOJO” e tocava quando falecia algum Lente (Vide “Rua Larga”), diz agora que, situado no quadrante sul, dá os quartos de hora. Aos 15 minutos dá um toque (1/4 hora), seguido de outro dado pelo “Cabrão” (????); Aos 30 minutos repete-se duas vezes (2/4) a sequência, aos 45 minutos, três vezes (3/4) e, aos 60 minutos, quatro vezes, instantes antes das horas dadas pelo “BALÃO” – Mas que confusão!


- “O CABRA” ou o “CABRÃO” – (mas são a mesma coisa????) – com nome de macho da cabra, por ter uma sonoridade mais grave, virado a norte, faz o toque do Presidente (da República), ????? do Ministro (da Tutela). ????? e acompanha o toque do “QUARTOS” ????? (mas que confusão, que trapalhada!!!)
- ”O BALÃO” – (Que desconheço em absoluto…) situado no lado nascente é o maior e o mais pesado de todos. Ainda comanda a vida (horas) da academia (???) ao mesmo tempo que se presta ao toque das Cerimónias Académicas (Sino do Capelo?) … como a do Cortejo Doutoral … no preciso momento em que a “Borla” é colocada na cabeça do Doutor. Mas que ritual é este???? (Será o se tocar enquanto o cerimonial da Imposição de insígnias Doutorais terminar?)


- “A CABRA” – (a sineta) – do lado oeste, virada ao rio, em vésperas de dias letivos, começa a tocar depois do toque das 18 h dado pelo “Balão” e fica a tocar em intervalos de 3 minutos, até parar de tocar, antes do Toque do “Quartos”, às 18,15 h. Todas as manhãs letivas, depois do toque de “Quartos”, às 07,45 h, repete a sequência até parar antes do “Balão” dar o toque das 08,00 h. ???? Mas que trapalhada é esta???


Ficaram a saber alguma coisa sobre os sinos e a função de cada um? Toca um de cada vez, ou tocam em “carrilhão?”!!!! Mas isto são informações condignas da Universidade de Coimbra???


Relata ainda um roubo do badalo da “Cabra” que deve ter sido “contado”, não documentado, sobre um “roubo do badalo do Cabrão” bem como sobre as setas de S. Sebastião. Convido os leitores interessados a lerem a veracidade destes acontecimentos em “Memórias do Mata-Carochas” do Dr. Antão de Vasconcelos que relata estes episódios (do roubo do badalo) no capítulo “O SOUZA” pag.77, editado pela Empreza Litterária e Typographica – Editora – 178, Rua de D. Pedro – 184 - PORTO
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COMO SE DERAM OS “ROUBOS DOS BADALOS”

1º - Roubo do Badalo da “Cabra” – 1864 - De qual badalo? Não esquecer que na Torre da Universidade existem 4 sinos. Segundo o Dr. António José Soares, ex-Diretor do Museu Académico, existem a “Cabra” (O), Vespertino, que toca das 18 às 18 e 15 horas, que manda recolher os caloiros para casa, ao estudo e anuncia as aulas para o dia seguinte. O “Cabrão” (N), Matutino, que toca das 7 às 7 e 15 horas da manhã, confirmando o toque vespertino da “cabra” e anunciando as aulas para esse dia. Se o “Cabrão” não tocar até às 7 e 15… não há aulas! Os outros dois, tocam um, nas cerimónias universitárias, nomeadamente na Abertura Solene da Universidade, Imposição de Insígnias Doutorais etc., o dos Capelos (E) e por último o sino dos Quartos (nojo, funerais…) (S). Há pelo menos duas descrições sobre o assunto. Em “In illo tempore”, Trindade Coelho dizia que dos mil sinos que havia em Coimbra, um deles, a “Cabra”, todos conheciam, pois tocava todos os dias nas vésperas de aula às 6 da tarde e nos dias de aula às 7 da manhã. (Há aqui um pormenor que não está correto, pois de manhã toca o “Cabrão” e não a “Cabra”).


No ano de 1864, diz Trindade Coelho, que três estudantes de Direito, valentões como os que o são, Adolfo Paiva Pereira Capon, Eduardo Segurado e Eduardo Montufar Barreiros, assentaram um dia em arranjar um feriado! Como, perguntaram os companheiros? Rouba-se o badalo à “Cabra”! (foram eles mesmos os que, uma noite, subiram ao nicho dos Arcos do Jardim onde se encontra a estátua de S. Sebastião e tiraram as setas, pondo em baixo o letreiro “Basta de tanto sofrer!”). Mas… voltando ao roubo do badalo; a Porta Férrea e a Porta de Minerva, ambas de ferro, fechavam às 18 horas da tarde. Do mesmo modo, a porta da Torre estava também fechada à chave.


Assim, numa bela noite, os nossos heróis, escalaram a muralha junto à porta de Minerva e, munidos de uma chave falsa, subiram à Torre e serraram o badalo procurando não deixar vestígios, e… era uma vez um badalo. Trindade Coelho não confirma se houve ou não feriado!


Outra versão é-nos dada por Antão de Vasconcelos, mais conhecido pelo “O Mata-Carochas”, e que me parece mais verosímil. No capítulo “Souza” do seu livro, descreve o roubo do badalo do “Cabrão” (e não da “Cabra”, como é lógico) do seguinte modo: Era aluno do primeiro ano de Direito da Universidade um estudante de nome Souza, natural da Figueira da Foz e que reprovara, no primeiro e segundo anos, à cadeira do Lente José Dias Ferreira. Na noite da segunda reprovação, houve um incêndio na residência deste Lente que, de imediato, acusou o Souza de, por vingança, incendiar o edifício! Feita a queixa ao Reitor Bazílio Alberto de Sousa Pinto, (este pouco querido da Academia), expulsou-o da Universidade e entregou-o ao poder civil para ser julgado.


Perante tal injustiça a Academia reuniu-se em Assembleia Geral no sentido de encontrar uma solução justa para com o Souza, que todos muito consideravam e incapaz de tal gesto, até porque, na residência incendiada morava o seu protetor António Pinto Basto, a quem tudo devia, além dos restantes familiares. Como em Coimbra nenhum Lente quis fazer a defesa do Souza, trouxeram do Porto o Dr. Custódio José Vieira. Como não havia provas evidentes, tudo se baseava na palavra do Lente! Contudo, como tinha sido expulso da Universidade, houve a tentativa de juntar ao processo testemunhos de “não estudantes” tentando incriminá-lo.


Quando souberam o dia do julgamento, que se realizou na Figueira da Foz, a Academia pediu para estar presente no mesmo, o que lhe foi concedido. Contudo, para isso, era necessário que o Reitor desse um feriado. Uma comissão de estudantes foi ter com o Reitor que recusou terminantemente tal proposta. Foi então que alguém falou no roubo do badalo do “Cabrão” e logo deram início à ação. Foi assim que os estudantes, Segurado, Capon, Barreiros, Lourenço Carvalhaes e outros, munidos de serras e limas, escalaram não só o pátio da Universidade ao lado do Observatório, (pela Porta de Minerva) cobrindo-se com a sombra deste. Entretanto, partiram um “janeleco” da Torre, por onde entraram e subiram à Torre. Foi um angustiante tempo de espera até que, duas horas depois, saíram com o badalo.


Às sete da manhã, como era normal, o guarda-mor Bazílio Ferreira, mais conhecido pelo “Coruja”, que residia por baixo da Via Latina junto à Torre, abriu a “caixa” onde estavam as pontas das cordas que tocavam os vários sinos e, puxando pela do “Cabrão”… nada! Não ouviu qualquer som! Puxou, voltou a puxar e… nada! À pressa veste, embrulhado no cobrejão do costume, sobe à torre e vê, com espanto, que o sino não tinha badalo! Sem saber que fazer, corre ao Reitor e este, ordenou-lhe: toque com a cabeça, toque com um martelo, com os cornos do diabo, mas toque!… O “Coruja” lá voltou de novo à torre, mas quando lá chegou já o sino do relógio tinha dado o quarto de hora “da praxe” e, “enquanto o som ia morrendo ao longe, levantou-se o grito uníssono de mais de três mil “guelas” escancaradas berrando… Feriado… Feriado… Viva o Reitor!...” e assim evitou-se a “parede” e deu-se ao Reitor o mais tremendo golpe, que em sua vida recebeu.


No dia do julgamento, na Figueira da Foz, uma devassa meticulosa, em que depuseram mais de 50 testemunhas, nada produziu, como nada produziu o Guarda-mor ter tocado o Cabrão com um martelo, depois do quarto de hora da praxe! À hora marcada, o Tribunal de Jury, presidido pelo Juiz Caldeira, que era muito considerado pela sua integridade, a Academia apresentou-se em peso para assistir. Não foi muito brilhante a sua atitude em Tribunal, pelo que foi ameaçada de expulsão. Depois da acusação do Delegado do Procurador Régio, teve a palavra a defesa do Dr. Custódio José Vieira que foi brilhante, levantando por vezes, do auditório “arrombos” da sua palavra mágica. Recolhido o Conselho de Jurados, voltou com a absolvição unanime do Souza. A sentença foi ouvida no mais profundo silêncio e o Juiz não apelou. À saída, passou por entre alas dos estudantes, agradecendo a distinção e acompanhado até à sua residência.


Antão de Vasconcelos não revela para onde terá ido o badalo do Cabrão.


Segundo roubo da “Cabra” – Em fevereiro de 1933, a cidade de Coimbra andava alarmada com uma enorme vaga de gripe. Os Liceus e Escolas fecharam, os Hospitais estavam repletos de doentes e os estudantes de cama. “O Ponnney” semanário humorístico da Academia dizia: “A Academia está doente! Meia academia está de cama! As aulas estão às moscas! A gripe aumenta! Os Liceus já fecharam! Porque não fecha a Universidade?!” A mesada quase não chegava para o leite quente e sinapismos! Os estudantes estão sozinhos em casa, na cama, mal tendo quem olhe por eles! Dizia-se que no Senado já se falava no encerramento das aulas, mas… todas as manhãs lá se ouvia o badalar do “Cabrão” triste e irónico! “O Ponney”, brincando consigo mesmo, dizia: “Não haveria processo de fechar a Universidade? E se a “Cabra” (em vez de “Cabrão”) não tocasse?


Pegando na deixa, uma comissão de estudantes avistou-se com o Reitor, no sentido de este encerrar a Universidade, dado o elevado número de estudantes doentes e em risco de poderem vir a perder o ano por faltas. Contudo, o Reitor não cedeu.


No dia 21 de fevereiro de 1933, quatro estudantes do CADC, da Faculdade de Medicina, Alfredo Rodrigues dos Santos Júnior, Aureliano Dias Gonçalves, Domingos Jeanes da Costa e Luís Cardoso Pinto da Encarnação, arrombando a porta da Torre subiram à mesma limando o badalo da “Cabra”. Resultado, na manhã seguinte, voltou a tocar o “Cabrão”, como era da praxe, o mesmo é dizer que as aulas continuaram! Houve aulas! Foi de facto, uma aventura insana e sem o efeito prático que todos desejavam: o fecho da Universidade!


O facto foi muito divulgado não só em Coimbra como na imprensa nacional, provocando riso e revelando a audácia e irreverência da Academia. O badalo esteve ao cuidado de um Padre na Beira, não se sabendo onde, e foi entregue ao Museu Académico, em 23 de novembro de 1952, precisamente na véspera do aniversário de mais uma “Tomada da Bastilha”. Um cortejo noturno de estudantes das “Republicas” festejou o regresso do badalo da “Cabra” a Coimbra e, de novo, aos estudantes. Terá coincidido o festejo das “Republicas”, com o cortejo da Tomada da Bastilha?


José Paulo Soares