Correcto e justo

 

Nem sempre o que é correcto é justo, mas o contrário já pode ser verdadeiro. Ou não?

Dois casais amigos e quase vizinhos, que pareciam viver na melhor das harmonias, encontraram-se no átrio de um hotel. Até aqui tudo bem, ainda que tudo mal, porque estavam trocados, isto é, a mulher de um estava com o marido da outra e vice-versa sem dar a volta ao prego.

Depois do embaraço inicial, choveram os insultos, apresentaram-se as razões que são sempre razões nestes casos embora não o sendo, saltitaram putas e coirões, safadas e malcriadas, pataratas, cabras, cabrões, e outros termos “eufemísticos” a adocicar a situação de corno de um e de outro, etc., etc…. Saltaram ódios e invejas, desesperos, testas apalpadas. Quase andaram à lambada sem a quererem dançar, enfim, até que veio a calma porque todos estavam em falta, todos se sentiam traídos e traidores, dois em um, duas em duas, se é que era mesmo faltoso, ou criminoso o que estava ou tinha acontecido.

Nisto, um dos mais calmos – havia uma calma do caraças, havia… - começou a balbuciar, a balbuciar o que ninguém entendia, até que terminou num pronto, todos estamos em falta, são coisas que acontecem, quem anda à chuva molha-se, ninguém controla os apetites, a estopa ao pé do fogo pega lume, e outras baboseiras e desculpas que não eram desculpas nem assumpção de erros porque não havia erros ma sim a satisfação de prazeres e necessidades, porque a galinha da vizinha é melhor que a minha, ou fruto proibido é o mais apetecido.

Calou-se e o outro retomou a lengalenga:

- Pronto, está bem, acabou-se. O que está feito está feito e não há volta a dar. Por isso, o mais correcto é cada um ir para sua casa e fazer contas à vida…

Responde o outro quase sem pensar:

- Sim, lá o mais correcto é, mas não é justo. Vocês vêm a sair…